A Terapia da Linha do Tempo® – Parte III – A Função das Emoções Desagradáveis

Lembre-se de um momento de sua vida em que você teve um desentendimento com alguém, mas agora esse desentendimento já não o incomoda mais. Pense no que aconteceu.

Um paciente teve uma história dessas. Médico, integrava a equipe de cirurgiões de um hospital. Em uma reunião dos médicos com a administração houve uma discussão séria entre ele o Diretor Administrativo a respeito de medidas para contenção da infecção hospitalar. Em palavras ríspidas um ofendeu o outro, mas logo foram cortados e acalmados pelos colegas. Mas a coisa não morreu ali. Ele saiu magoado, bastante ofendido com o Diretor. Nas duas semanas seguintes ficou remoendo os fatos. Durante quase dois meses mal se falaram.

Nesse meio tempo, o médico começou a pensar mais friamente sobre o que aconteceu naquela tarde. Lembrou-se de que já fora à reunião de mau humor devido a acontecimentos na família. Lembrou-se também de reuniões anteriores onde o Diretor já havia falado de suas dificuldades para resolver alguns problemas. Alguns poucos colegas da turma do “deixa disso” vieram falar com ele mostrando as possíveis conseqüências desastrosas da continuação daquele mal estar. Um colega, o mais reservado do grupo, chegou e perguntou: “O que você aprendeu com essa experiência?” Durante mais um mês ele pensou sobre o que havia feito, compreendeu seu descontrole e as razões de descontrole do Diretor. Ao final desse tempo, permanecera apenas a lembrança de que o fato havia acontecido e as relações entre ele e o Diretor foram voltando ao normal.

Isto não lhe parece familiar? É possível que você tenha passado por alguma experiência semelhante. Uma briga ou uma frustração de expectativas. Algum tempo depois da ocasião você ainda se sentia mexido, ressentido ou triste. Mas houve um momento em que você começou a olhar para a experiência com outros olhos. Talvez você tenha compreendido o que o levou a agir da maneira com que agiu, ou que na hora poderia ter agido de outra forma mais própria. Talvez tenha até descoberto que a outra pessoa reagiu daquele jeito em função da própria maneira com que você agiu. Quem sabe em função disso você a desculpou e assumiu sua própria responsabilidade no caso? Ou então você entendeu as razões dela. Você pode também ter conversado com ela mais tranqüilamente, acertando as diferenças com outras compreensões. O fato marcante é que agora os sentimentos desagradáveis que vinham associados à lembrança já se foram. Você “resolveu” a experiência e dela ficou apenas um fato da vida. Quem já não passou por algo assim?

As experiências são os exercícios que a vida nos traz para aprendermos suas lições. Algumas experiências dão certo e nos sentimos bem. Elas são incorporadas ao nosso acervo da vida e crescemos um pouco mais com cada uma. Outras dão um resultado diferente do esperado. Se você pensar que uma experiência não deu certo, você tem duas opções. Considere primeiro a noção de um fracasso. Agora, pense no que é um fracasso. Considere o fracasso como uma noção subjetiva, como o resultado de um julgamento que se faz frente à premissa de que as experiências têm que dar o resultado esperado. Porém o fracasso em si não existe como experiência direta. O que existe são resultados e feedback. Existe o resultado que você obtém daquilo que fez e o que você recebe como informação de retorno para realimentar sua próxima ação. Sua reação pessoal a esses resultados é que define o que você entende por seu sucesso. Analisando o que você obteve e tomando-o como feedback para suas ações seguintes, você está incorporando a experiência ao seu acervo de aprendizados. Assim toda experiência de alguma forma dá certo.

Por outro lado, uma pessoa pode pensar que não foi feliz com o que aconteceu, pode decidir que realmente “não deu certo” e fracassou. Ela então cria sentimentos negativos vindos da frustração ou da sua incapacidade de lidar adequadamente com o fato. Estes sentimentos dificultam olhar com tranqüilidade o que está acontecendo. Ela não entende em profundidade o que ocorreu e não tira suas lições para a vida. A partir de então a memória permanece guardada com o registro dos sentimentos do momento. E agora vem a noção que mais aprecio nisto tudo: os sentimentos desagradáveis estão lá como um sinal, um sinal de que há aprendizados a serem realizados. Emoções desagradáveis como tristeza, raiva, medo ou culpa, associadas a memórias, indicam que há experiências abertas em seu passado, momentos de sua vida em que você não aprendeu o suficiente. São essas memórias e seus sentimentos guardados que, de vez em quando, são apresentados ao consciente nos momentos em uma pessoa se dá conta de desses sentimentos. Nas brigas, nas perdas, nos momentos de medo, de mágoa e de raiva.

Essa é uma função importante da sua mente inconsciente e que deve ser entendida numa perspectiva de longo prazo. As emoções desagradáveis vão sendo apresentadas pelo inconsciente ao longo de sua vida para que você feche experiências antigas através do aprendizado. Cada vez que você sentir emoções desagradáveis em momentos “impróprios”, senti-las nos dramas de relacionamentos e nas experiências que geram conflitos e insatisfações, ou quando você sentir essas emoções de uma forma muito intensa, pense que sua mente inconsciente está gritando: “Atenção, há memórias na sua vida que você precisa limpar! Para viver este momento que você está vivendo agora você precisa aprender certas coisas de experiências anteriores. Aprenda logo para que você cresça e vá em frente!”. Se você não aprender isto você não tem tudo o que necessita para viver bem estes tipos de momentos. E seu inconsciente vai continuar a trazer à tona os mesmos sentimentos, experiências do mesmo tipo e esses relacionamentos desagradáveis – tudo para ajudar a lembrá-lo que há aprendizados a serem preenchidos.

Uma emoção negativa que permanece é um sinal de que sua vida está parada em algum patamar. É uma evidência que você não vai crescer naquela área enquanto o aprendizado não for realizado. Considere isto: se você não retira lições e compreensões de sua vida, nenhum tempo vai curar suas feridas.

No próximo artigo vamos mostrar com linha do tempo, causas raízes e aprendizados se integram na Terapia da Linha do Tempo®.

George Vittorio Szenészi

Artigo publicado na Revista Conhecimento, 1999.

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