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Parte II
A Função das
Emoções Desagradáveis
Lembre-se de um momento de sua
vida em que você teve um desentendimento com alguém, mas agora esse
desentendimento já não o incomoda mais. Pense no que aconteceu.
Um paciente teve uma história
dessas. Médico, integrava a equipe de cirurgiões de um hospital. Em uma
reunião dos médicos com a administração houve uma discussão séria entre ele
o Diretor Administrativo a respeito de medidas para contenção da infecção
hospitalar. Em palavras ríspidas um ofendeu o outro, mas logo foram
cortados e acalmados pelos colegas. Mas a coisa não morreu ali. Ele saiu
magoado, bastante ofendido com o Diretor. Nas duas semanas seguintes ficou
remoendo os fatos. Durante quase dois meses mal se falaram.
Nesse meio tempo, o médico
começou a pensar mais friamente sobre o que aconteceu naquela tarde.
Lembrou-se de que já fora à reunião de mau humor devido a acontecimentos na
família. Lembrou-se também de reuniões anteriores onde o Diretor já havia
falado de suas dificuldades para resolver alguns problemas. Alguns poucos
colegas da turma do "deixa disso" vieram falar com ele mostrando
as possíveis conseqüências desastrosas da continuação daquele mal estar. Um
colega, o mais reservado do grupo, chegou e perguntou: "O que você
aprendeu com essa experiência?" Durante mais um mês ele pensou sobre o
que havia feito, compreendeu seu descontrole e as razões de descontrole do
Diretor. Ao final desse tempo, permanecera apenas a lembrança de que o fato
havia acontecido e as relações entre ele e o Diretor foram voltando ao
normal.
Isto não lhe parece familiar? É
possível que você tenha passado por alguma experiência semelhante. Uma
briga ou uma frustração de expectativas. Algum tempo depois da ocasião você
ainda se sentia mexido, ressentido ou triste. Mas houve um momento em que
você começou a olhar para a experiência com outros olhos. Talvez você tenha
compreendido o que o levou a agir da maneira com que agiu, ou que na hora
poderia ter agido de outra forma mais própria. Talvez tenha até
descoberto que a outra pessoa reagiu daquele jeito em função da própria
maneira com que você agiu. Quem sabe em função disso você a desculpou e
assumiu sua própria responsabilidade no caso? Ou então você entendeu as
razões dela. Você pode também ter conversado com ela mais tranqüilamente,
acertando as diferenças com outras compreensões. O fato marcante é que
agora os sentimentos desagradáveis que vinham associados à lembrança já se
foram. Você "resolveu" a experiência e dela ficou apenas um fato
da vida. Quem já não passou por algo assim?
As experiências são os exercícios
que a vida nos traz para aprendermos suas lições. Algumas experiências dão
certo e nos sentimos bem. Elas são incorporadas ao nosso acervo da vida e
crescemos um pouco mais com cada uma. Outras dão um resultado diferente do
esperado. Se você pensar que uma experiência não deu certo, você tem duas
opções. Considere primeiro a noção de um fracasso. Agora, pense no que é um
fracasso. Considere o fracasso como uma noção subjetiva, como o resultado
de um julgamento que se faz frente à premissa de que as experiências têm
que dar o resultado esperado. Porém o fracasso em si não existe como
experiência direta. O que existe são resultados e feedback. Existe o
resultado que você obtém daquilo que fez e o que você recebe como informação
de retorno para realimentar sua próxima ação. Sua reação pessoal a esses
resultados é que define o que você entende por seu sucesso. Analisando o
que você obteve e tomando-o como feedback para suas ações seguintes, você
está incorporando a experiência ao seu acervo de aprendizados. Assim toda
experiência de alguma forma dá certo.
Por outro lado, uma pessoa pode
pensar que não foi feliz com o que aconteceu, pode decidir que realmente
"não deu certo" e fracassou. Ela então cria sentimentos negativos
vindos da frustração ou da sua incapacidade de lidar adequadamente com o
fato. Estes sentimentos dificultam olhar com tranqüilidade o que está
acontecendo. Ela não entende em profundidade o que ocorreu e não tira suas
lições para a vida. A partir de então a memória permanece guardada com o
registro dos sentimentos do momento. E agora vem a noção que mais aprecio
nisto tudo: os sentimentos desagradáveis estão lá como um sinal, um sinal
de que há aprendizados a serem realizados. Emoções desagradáveis como
tristeza, raiva, medo ou culpa, associadas a memórias, indicam que há
experiências abertas em seu passado, momentos de sua vida em que você não
aprendeu o suficiente. São essas memórias e seus sentimentos guardados que,
de vez em quando, são apresentados ao consciente nos momentos em uma pessoa
se dá conta de desses sentimentos. Nas brigas, nas perdas, nos momentos de
medo, de mágoa e de raiva.
Essa é uma função importante da
sua mente inconsciente e que deve ser entendida numa perspectiva de longo
prazo. As emoções desagradáveis vão sendo apresentadas pelo inconsciente ao
longo de sua vida para que você feche experiências antigas através do
aprendizado. Cada vez que você sentir emoções desagradáveis em momentos
"impróprios", senti-las nos dramas de relacionamentos e nas
experiências que geram conflitos e insatisfações, ou quando você sentir
essas emoções de uma forma muito intensa, pense que sua mente inconsciente
está gritando: "Atenção, há memórias na sua vida que você precisa
limpar! Para viver este momento que você está vivendo agora você precisa
aprender certas coisas de experiências anteriores. Aprenda logo para que
você cresça e vá em frente!". Se você não aprender isto você não tem
tudo o que necessita para viver bem estes tipos de momentos. E seu inconsciente
vai continuar a trazer à tona os mesmos sentimentos, experiências do mesmo
tipo e esses relacionamentos desagradáveis - tudo para ajudar a lembrá-lo
que há aprendizados a serem preenchidos.
Uma emoção negativa que permanece
é um sinal de que sua vida está parada em algum patamar. É uma evidência
que você não vai crescer naquela área enquanto o aprendizado não for
realizado. Considere isto: se você não retira lições e compreensões de sua
vida, nenhum tempo vai curar suas feridas.
No próximo artigo vamos mostrar com linha do
tempo, causas raízes e aprendizados se integram na Terapia do Linha do
Tempo.
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Artigo publicado na
revista "Conhecimento Sempre" – Ano 3 – Número 15 – Junho/98
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